A Falácia da criação de Emprego na Base Aérea 6 Montijo

 José Encarnação *

A falácia da criação de emprego no alargamento do Aeroporto de Lisboa à Base Aérea nº 6, no Montijo.

 

Ponto prévio

Ao iniciar este texto julgo útil e necessário lembrar de que não há uma forma única de abordar a questão do emprego como alguns parecem pretender.

Neste pressuposto tentarei demonstrar a falácia do Governo/ANA/VINCI quanto ao emprego a ser gerado pela utilização da Base Aérea número 6, no Montijo, como aeroporto complementar da Portela/Humberto Delgado.

Mas antes disso importa esclarecer duas coisas. A primeira é que na BA6-Montijo não irá ser construído um novo aeroporto mas sim uma infraestrutura aeroportuária complementar de Lisboa. A segunda questão que tem sido, senão escamoteada, pelo menos ludibriada é que a construção do NAL – Novo Aeroporto de Lisboa – realizar-se-á também ele no concelho do Montijo na freguesia de Canha. A referência ao CTA (Campo de Tiro de Alcochete) induz as pessoas a julgarem que se trata de Alcochete ainda que isso possa não ser o mais relevante já que estamos a falar de “meia dúzia” de kilómetros de distância entre as duas localizações.

Tal evidência deita por terra a azáfama com que o actual Presidente da Câmara do Montijo argumenta e  defende a opção pela BA6. Sabe-se lá com que intuitos.

Outra coisa que, propositadamente não dizem, é que a solução do Campo de Tiro de Alcochete é, de facto, uma solução duradoura. Ao invés, a opcção Montijo-BA6 é provisória e limitada nas suas possibilidades de evolução e crescimento. Logo o emprego e o impacto económico serão, eles também, limitados e provisórios.

A terceira questão a considerar é que está por provar que haverá, mesmo, criação de milhares de postos de trabalho.

Vamos aos factos.

Segundo o ACI – Comité Internacional de Aeroportos – a estimativa, ponderada, de criação de empregos para aeroportos de baixa densidade de tráfego (é o caso do Montijo-BA6 com a “nuance” de que apenas acolherá as companhias “Low-Cost”) andará entre os 350 e 600 empregos por milhão de passageiros transportados. Nesta estimativa do ACI  inclui-se a vertente carga o que não será o caso da BA6-Montijo.

De acordo com vários estudos e cenários e admitindo que o actual ritmo de crescimento de passageiros se vai manter, o Montijo-BA6 não irá além dos 4 a 5 milhões de passageiros em 2030.

Assim e só nessa data seria expectável um número entre as 1.200 e 1.400 empregos. Sendo certo, como disse atrás, que o Montijo-BA6 não terá a vertente carga nem o limite mínimo (350 empregos por milhão de passageiros) será atingido. Fazendo fé nos estudos/projeções da Rolan Berger, o Montijo-BA6 nunca gerará mais do que uma meia dúzia de centenas de empregos.

As companhias “Low-Cost” não só não geram empregos directos como pouco ou nada contribuem para a dinamização da economia local.

Em regra, até os impostos das “Low-Cost”são pagos nos países de origem.

Qualquer pessoa que já tenha viajado em companhias do género sabe que “até a água é paga”. Por isso seria estranho que essas companhias aéreas viessem a induzir a criação de empregos indirectos, com algum significado,  no Montijo. Para quem esteja menos atento nem os combustíveis são de fornecimento local.

Simultaneamente os passageiros, turistas ou não, das “Low-Cost” não fazem consumo significativo no aeroporto de chegada. Como entender então o proclamado dinamismo económico para a zona? O que parece, isso sim, é que pelo menos o autarca do Montijo o que sonha é com uns milhões (fala-se em 15 milhões de euros) para fazer uns brilharetes com “acessibilidades” às quais vai chamar de desenvolvimento. 15 milhões, à escala do Montijo, pode ser considerado muito dinheiro mas comparado com o que está em causa são migalhas.

Como compreender então o anúncio feito pelo ministro Pedro Marques de que se irão criar 20 mil empregos? Só o poderemos compreender à luz de uma tentativa, forçada, de confundir os mais incautos ou menos informados e misturar Portela e Montijo tudo no mesmo saco.

A título de exemplo Frankfurt, um dos maiores aeroportos da Europa, movimentou 48 milhões de passageiros em 2003. Com esse volume de passageiros foram movimentados, entre directos e indirectos, 2.955 empregos. Contudo há que ter em atenção que esta referência a Frankfurt diz respeito a um  grande “Hub”** europeu que nada tem que ver com a nossa realidade e muito menos com o Montijo-BA6.

A este respeito há aliás uma “lógica” e um fio condutor na “argumentação” do Governo e da ANA/VINCI:  Hipervalorizar os supostos benefícios e esconder, desvalorizar e minimizar os impactos negativos como sejam os do ruído, os impactos na avifauna e a perturbação da vida de dezenas de milhares de pessoas.

Mas (há sempre um mas) há um outro facto que esquecem ou escamoteiam. Entre militares e civis, trabalham, actualmente, na Base Aérea do Montijo cerca de 800 a 900 pessoas. A esmagadora maioria dos empregos, nomeadamente os militares, são altamente qualificados cenário que muito dificilmente se verificará com a sua “transformação” em aeroporto civil.

Factos :

1 – Iremos assistir a uma inaceitável desvalorização e desqualificação do emprego que já existe na BA6;

2 – Poderemos assistir, no imediato, a uma efectiva “liquidação” e diminuição líquida de empregos. Até no médio prazo é duvidoso que aconteça um saldo positivo.

Outro aspecto que ninguém fala (não convém?) são as consequências negativas para centenas de militares e suas famílias que se vão ver “empurradas”, com a deslocalização para outros pontos do país, nomeadamente para Sintra e Beja. São imensas as dúvidas acerca da possibilidade de coexistirem, em condições aceitáveis, operações militares com um aeroporto civil. Ainda que o fossem, as obras necessárias para prolongar as pistas e outras infraestruturas indispensáveis na BA6, levariam à transferência das operações de índole militar, particularmente as de busca e salvamento.

Como cidadãos, que respeitam e valorizam o papel das suas Forças Armadas enquanto garante da soberania nacional,  não podemos aceitar infernizar a vida de centenas de militares ainda por cima sem uma justificação forte e compreensível.

A região compreendida pela Península de Setúbal e o país necessitam da criação de emprego qualificado pois é emprego estruturante e com raízes sólidas. Tudo o que não precisamos é de insistir em “soluções” precárias e absolutamente transitórias.

Insistir na opcção  BA6-Montijo é persistir no caminho do empobrecimento da região que, como alguns estudos recentes indicam, passou a figurar como a 4ª mais empobrecida do país.

Persistir na opcção Portela+1 é adiar obras e investimentos que o país precisa. É o caso de um grande Aeroporto na zona de Lisboa e de uma nova travessia do Tejo – TTT – com vista ao transporte ferroviário de grande porte, nomeadamente aos comboios de 750 metros.

Insistir na opcção BA6-Montijo não é uma bênção, é um castigo!

Julho de 2018

* (dirigente da União dos Sindicatos de Setúbal e dirigente da CGTP-Intersindical Nacional no período entre 1976 e 1990. Activista da Plataforma Cívica Aeroporto BA6.Montijo Não.)

**Hub (do inglês), plataforma giratória de voos, e centro de conexão são designações dadas ao aeroporto utilizado por uma companhia aérea como ponto de conexão para transferir seus passageiros para o destino pretendido (não acontece com as “Low-Cost” que fazem apenas ligações ponto a ponto). É parte do sistema hub-and-spoke (“cubo e raios“, como numa roda de bicicleta), no qual viajantes em trânsito entre aeroportos que não são servidos por voos diretos trocam de aeronave para continuar sua viagem ao destino final. Muitas companhias aéreas têm seus hubs situados em aeroportos das cidades onde ficam sua sede, hangares ou terminais.

 

 

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